"A garota havia chegado pela primeira vez naquele local escuro que tanto havia ouvido falar. Era um local úmido, frio, em que não se era possível distinguir absolutamente nada das sombras presentes, e o único sinal de esperança era uma luz que vinha de longe, muito longe.
Havia pessoas ali. Não dava para ver as pessoas, mas podia se sentir a presença delas. Ela caminhou um pouco mais, e sem querer esbarrou em um conhecido seu, seu melhor amigo. Trocaram algumas palavras, mas a garota estava impaciente.
Se despediu do amigo e logo em seguida esbarrou em uma outra pessoa, um desconhecido. Era um garoto, e ele começou a conversar com ela como se fossem amigos de infância. A cada frase dita, os dois iam envolvendo-se mais naquilo, até que se ouviu um barulho metálico de algo se quebrando.
O garoto pegou a sua mão, e a conduziu até a luz. Depois de tanto tempo naquela escuridão, os olhos da garota queimaram até se acostumar com aquilo. Estavam ambos livres em um jardim lindo e ensolarado, fora daquele local úmido e frio.
Os dois correram pelo jardim como se fossem duas crianças, e de fato eram crianças, aproveitando aquilo como nunca.
Um dia o garoto ficou bravo com umas palavras trocadas entre ele e a garota, não conseguia mais aproveitar daquilo na mesma intensidade que um dia aproveitou. Ele então, em um gesto de egoísmo e raiva, a tomou pela mão e a arrastou de volta para o local escuro de onde haviam se conhecido.
Ele a colocou, suavemente, ao lado de onde seu melhor amigo estava, deu um beijo em sua boca e a última coisa que aconteceu antes de partir foi outro som metálico. Grilhões, era isso que havia naquela sala. Ela conseguia enxergar melhor apesar do escuro e percebeu que seu amigo também estava preso a grilhões, assim como outras faces já conhecidas naquele local.
O garoto voltou para seu lugar de sempre, com o mesmo grilhão em volta de seu tornozelo. Ele ainda a visita de tempos em tempos, e a estrutura metálica envolvendo seus grilhões se torna mais fina, quase a ponto de quebrar, mas então o garoto volta para seu local e a estrutura se torna rígida e resistente novamente, aprisionando ambos no escuro.
Valeu a pena trocar o jardim ensolarado por aquilo novamente? O orgulho no peito do garoto nunca some, mas essa pergunta visita seus pensamentos todos os dias.
Não era mais apenas um grilhão que prendia o garoto àquele local, agora eram dois."
ethika
Há 5 anos
Nenhum comentário:
Postar um comentário