"A garota estava com seus 17 anos, mas sentia dentro de si como se fosse uma garotinha mais jovem. Ela nunca havia tido suas 'amolações mensais', como sua mãe costumava dizer; isso a fazia ser retraída, bobinha, enfim, uma menina.
Todas as outras garotas contavam sobre como era ser mulher, sobre as dores, sobre tudo, e a garota apenas ouvia, sem saber o que dizer, apenas sonhando e se preparando para o momento de finalmente poder sentir tudo isso e crescer.
Pouco antes do seu aniversário de 18 anos, a garota começou a sentir dores insuportáveis. Chorava, deitava na cama na posição fetal, intoxicava o corpo com remédios, mas nada adiantava. Ela comentava com as suas amigas sobre isso, mas tudo que elas diziam era que a dor era normal, e que ia passar, que só voltaria em determinadas épocas.
A dor não passava, e os dias iam passando vagarosamente. A garota nunca havia tido muito contato com sua mãe, mas não aguentando mais resolveu contar a situação e pedir por ajuda. A mãe não fez muita questão da dor dela, repetiu o que as amigas haviam lhe dito e disse que depois de um tempo você não se incomoda mais tanto com a dor, ela passa a ser dormente e parte do dia-a-dia.
Acreditando na possibilidade daquilo passar, a garota começou a tentar ignorar a dor, a fazer atividades que gostava para esquecer o que estava sentindo. As amigas cansaram dela reclamar por algo que todas elas passavam, mas generalizar algo nunca diminuiu as proporções daquilo pra garota.
A garota gritava a noite, maldizia o dia que isso tudo começou, tentava encontrar explicações para essa dor insuportável e não entendia como era tão tola a ponto de um dia ter sonhado com isso.
O sangramento finalmente começou, e a dor só piorava. Além da dor havia todo o desconforto daquela situação e ainda tinha que tentar esconder tudo aquilo dos outros, como o código social diz que devemos.
Havia se tornado mulher.
Teria que se mostrar forte, teria que se mostrar poderosa, teria que se mostrar mulher...
A dor nunca passou. Nunca. A garota, agora mulher, teve que aprender a não ser vulnerável, a conviver com a dor sem mostrar no semblante, a chorar apenas quando ninguém pode ouvir, a mentir quando a maior vontade é ser sincera e expurgar aquela dor, a usar substâncias tóxicas para ter alguns momentos de alegria e paz...
Nunca voltaria a ser o que era, afinal, havia se tornado mulher."
ethika
Há 5 anos
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