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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Mulher

"A garota estava com seus 17 anos, mas sentia dentro de si como se fosse uma garotinha mais jovem. Ela nunca havia tido suas 'amolações mensais', como sua mãe costumava dizer; isso a fazia ser retraída, bobinha, enfim, uma menina.
Todas as outras garotas contavam sobre como era ser mulher, sobre as dores, sobre tudo, e a garota apenas ouvia, sem saber o que dizer, apenas sonhando e se preparando para o momento de finalmente poder sentir tudo isso e crescer.
Pouco antes do seu aniversário de 18 anos, a garota começou a sentir dores insuportáveis. Chorava, deitava na cama na posição fetal, intoxicava o corpo com remédios, mas nada adiantava. Ela comentava com as suas amigas sobre isso, mas tudo que elas diziam era que a dor era normal, e que ia passar, que só voltaria em determinadas épocas.
A dor não passava, e os dias iam passando vagarosamente. A garota nunca havia tido muito contato com sua mãe, mas não aguentando mais resolveu contar a situação e pedir por ajuda. A mãe não fez muita questão da dor dela, repetiu o que as amigas haviam lhe dito e disse que depois de um tempo você não se incomoda mais tanto com a dor, ela passa a ser dormente e parte do dia-a-dia.
Acreditando na possibilidade daquilo passar, a garota começou a tentar ignorar a dor, a fazer atividades que gostava para esquecer o que estava sentindo. As amigas cansaram dela reclamar por algo que todas elas passavam, mas generalizar algo nunca diminuiu as proporções daquilo pra garota.
A garota gritava a noite, maldizia o dia que isso tudo começou, tentava encontrar explicações para essa dor insuportável e não entendia como era tão tola a ponto de um dia ter sonhado com isso.
O sangramento finalmente começou, e a dor só piorava. Além da dor havia todo o desconforto daquela situação e ainda tinha que tentar esconder tudo aquilo dos outros, como o código social diz que devemos.
Havia se tornado mulher.
Teria que se mostrar forte, teria que se mostrar poderosa, teria que se mostrar mulher...
A dor nunca passou. Nunca. A garota, agora mulher, teve que aprender a não ser vulnerável, a conviver com a dor sem mostrar no semblante, a chorar apenas quando ninguém pode ouvir, a mentir quando a maior vontade é ser sincera e expurgar aquela dor, a usar substâncias tóxicas para ter alguns momentos de alegria e paz...
Nunca voltaria a ser o que era, afinal, havia se tornado mulher."

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